terça-feira, 10 de janeiro de 2012


Sergei Rachmaninoff
Concerto para piano e orquestra nº2 em dó menor
2º movimento (fragmento) - Adagio sostenuto

Piano: Andrei Gavrilov
Regência: Vladimir Ashkenazy
Orquestra Filarmônica de Londres


A música fala mais do que mil palavras...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012



Tenho aqui ranhuras novas
- a distância as entalhou
com tangidos de memórias -
as que morreram de saudades
numas idas, nos vagares
e perderam-se, depois cessaram,
inexatas máculas perpétuas

Feridas rotas noutros tempos,
dormem inquietas, sobressaltas,
perambulam de um lado ao outro
das virginais conquistas
de um nobre, casto, etéreo
Formam tormentas, abrasam humores,
recorrem ausências, o diabo!

E torce essa serenidade mouca
até extrair de sua seiva
a mais aflita das verdades:
estivera apartada de tudo,
tão onipresente e enjaulada;
Tu, saudade, que se fora
e que te entranhas agora.

São teu tempo e teu espaço
nos dias miscigenados.
É teu motejo de criança
empunhalando o sabre
das alegorias a tua eleita.
Ruinas da memória e um catre
na tua cela pedregosa.

Que me libertasse, pois
à frenética sina de não tê-la,
a andar ex umbris ad lucem
sem precisar colher de outrora
os farelos de meus entalhos
Que as saudades de minhas tertúlias
fossem hoje apegos a nascer na aurora.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011



A IDÉIA DA UNIVERSIDADE
E AS IDÉIAS DAS CLASSES MÉDIAS
OTTO MARIA CARPEAUX

 fonte: http://www.olavodecarvalho.org/textos/carp3.htm

Jamais esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez, com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos, no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Um pórtico silencioso. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram; no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada"; e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes." No meio do pátio, num pequeno jardim, sob o ameno sol de outono, erguia-se uma estátua de mulher nua, com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Silêncio. Não esquecerei nunca.

A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecisslogans políticos do dia, e que se chamavam "acadêmicos".

A última vez que passei perto deste "templo das Musas", o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais — estávamos na primavera — via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo.

Por toda parte, as universidades são doentes, senão moribundas, e isto é grande coisa. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Das universidades depende a vida espiritual das nações. O fim das universidades seria um fim definitivo. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Os edifícios das universidades resistem ainda, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos." E, deste modo, somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: "We are entered in a race between education and catastrophe." "Entramos numa corrida entre educação e catástrofe." Aí está a questão da Universidade.

Quem é o culpado? Evidentemente, é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido, e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada, e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui, queixam-se de as universidades não fornecerem elites, de que a nação tem necessidade; ali, queixam-se de que as universidades fornecem elites demais, um proletariado intelectual. Abundam os remédios propostos. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino, o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria, assim, afastada da vida, e o ensino entregue à rotina. Falham, igualmente, as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes, os mesmos bacharéis, os mesmos doutores que antes, e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos, muito "práticos", "úteis" para os serviços do Estado, da Igreja, dos partidos e das empresas comerciais. Pode ser que todas essas instituições lamentem, em breve, a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. Então, acusar-se-á amargamente o utilitarismo das universidades modernas. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade.

Mas o que quer dizer "prático", "útil"? A resposta não é tão simples. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista, ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas.

Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química, que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes, são as ciências úteis; a história e a filosofia, que não nos fornecem nada, são ciências "inúteis". Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos, que disso entendem muito bem. Certos regimes, ditos totalitários, acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências, cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Ora, que vemos nós, com surpresa? Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências "práticas", a física e a química, que continuam bem tranqüilas. Mas as ciências totalmente inúteis, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las. É digno de nota.

Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. Sabemos que a Universidade, Universitas Litterarum, é uma criação da Idade Média. Ora, os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais, que a Idade Média conhecia pouco, e que se juntaram mais tarde à Universidade. Tratam somente das "velhas" ciências, das Litterae, que na Idade Média já eram conhecidas, e que formam a verdadeira alma da Universidade. Está claro. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações; e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Eles sabem o que é uma universidade.

A história das universidades é a história espiritual das nações. A França medieval é a Sorbonne, cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France, e cujo prolongamento moderno é a École Normale Supérieure. A Inglaterra, mais conservadora, é sempre Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana é Wittenberg e Iena; a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal da nação: o lettré, o gentleman, oGebildeter. Elas formam os homens que substituem, nos tempos modernos, o clero das universidades medievais. Elas formam os clercs.

As universidades americanas têm a mesma origem. As velhas universidades da América Latina — Lima, México, Bogotá, Córdova — são fundações da Coroa de Espanha; mas foram, desde o início, confiadas aos frades, e já a primeira cédula de fundação, a ordem real do imperador Carlos V, de 21 de setembro de 1551, dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito, o espírito desinteressado da Universidade medieval: "Para servir a Deus, Nosso Senhor, e ao bem público de nossos reinos, convém que nossos vassalos, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades, e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias, e desterrar deles as trevas da ignorância, criamos, fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru, e na cidade de México da Nova Espanha, Universidades e Estudos Gerais." Nada mais eloqüente, admirável, do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram, em 1636, a primeira universidade da América inglesa, a de Harvard: "After God had carried us safe to New England, and we builded our houses and settled the Civil Government; one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity, dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust" (New England’s First Fruits, 1643). ("Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra, e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil, uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpetuá-lo para a posteridade, com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.")

O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Já não formam lettrés, nem gentlemen, nem Gebildeter; formam médicos, advogados, professores. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas; e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Não há maisclercs, só há estudantes.

Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.

Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres", sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres"; são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão"; estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. Seria cruel e estúpido censurá-los. Antes, devemos admirá-los, em virtude dos sacrifícios, muitas vezes imensos, feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. Todavia, importa não se dissimularem os graves inconvenientes. Estudantes "pobres", há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria, pelas ocupações acessórias para ganhar a vida; sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Junte-se a isto a benevolência, plenamente justificável, que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma, o nível baixa sensivelmente. O nível baixa, dizemos, até o nível dos estudantes "ricos". São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico, porque o pai tem um, porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência, o que é, aliás, muito louvável. Existem outros verdadeiramente ricos, que não têm necessidade de estudar, mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências; e estas, por sua vez, precisam deles, para subsistir materialmente. Em todo caso, os seus estudos não são de necessidade absoluta; eles não estudam mais do que o necessário, o indispensável para passar nos exames; os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. E são eles que, pela sua situação social, determinam o nível geral. E esse nível é a morte da Universidade.

Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. Sim, mas em compensação fornecem verdadeiras massas, porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes; e para isto eles satisfazem. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão, mesmo acadêmica, não é tão grande como os leigos imaginam. Há vários séculos um sábio inglês, o cônego dr. Copleston, fellow do Ariel College, em Oxford, predizia: "Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço, os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso" (citado pelo cardeal Newman, The Idea of a University, p. 72). É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos.

É preciso que se digam, aqui, algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. Existe Inteligência e existem "intelectuais". Intelectuais são os médicos, os advogados, os funcionários superiores de toda espécie, os especialistas científicos de toda sorte. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência, que é, por seu lado, o resto dos clercs, da elite de outrora. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico, bom advogado, bom professor, e ter o espírito preso aos limites da profissão; e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Mas ele confere sempre uma autoridade social. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais, violentamente, mas sinceramente: "Nuevo bárbaro, retrasado con respecto a su época, arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca, pero más inculto también — el ingeniero, el médico, el abogado, el científico" (Misión de la Universidad, Obras, p. 1289).

O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim, mas o espírito proletário, o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais, não está exclusivamente ligado às massas obreiras; participam dele todas as "massas", como fenômenos sociológicos, e a massa dos intelectuais também. É o fato central da nossa época: as classes médias, mesmo antes de serem proletarizadas, mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização, transformam-se em massas proletárias. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo, Fascisme et grand capital, de Daniel Guérin, apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista, Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou, enfim, mais forte do que o mestre, e que os operários e os capitalistas perderam, juntos, a liberdade de movimento, pela ação deste inimigo de ambos — as classes médias. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias, das quais é a expressão triunfal.

O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu, não teve uma classe média. Ora, seguindo a corrente da época, o bolchevismo criou uma classe média. A burocracia soviética, os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado não são outra coisa senão uma nova classe média. Considerando, nos outros países, a ascensão de camadas igualmente novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de "pequenos intelectuais"; considerando essas multidões de homens novos, nem capitalistas nem trabalhistas, que Karl Marx não podia prever, deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violentamente revolucionária e antiintelectualista.

Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem profundamente pequeno-burguês, representante típico das classes médias francesas, preocupado com a decadência das "autoridades sociais", que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play; preocupado, enfim, com a decadência vital da raça latina, pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência; ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa.

Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência, na França dos Taine e Bergson, dos Flaubert e Proust, dos Mallarmé e Claudel, dos Degas e Cézanne, dos Rodin e Debussy, dos Pasteur e Henri Poincaré, numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Mas é por isso mesmo. Sorel é violentamente antiintelectualista. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto, Sorel parece sobretudo "moderno", contemporâneo de nós outros. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias.
No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador, o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Durante um século, o século XIX, esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora, a portadora mesma das tradições humanísticas, e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Isto, porém, acabou. Chegou o dia de uma nova classe média, pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou, como na Rússia, triunfar contra um regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária.
Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo — e Sorel o previra bem — era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência.

Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dosdéclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.

A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência antiintelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez declercs, de uma elite.

O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.

O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.

Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: "La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás" (O. C., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, osseñoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente.

"We are entered in a race between education and catastrophe." Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta.

Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições.

Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind",1 de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Trata-se do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura".

Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval, que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto" — dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes,"dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust".

NOTAS
  1. "Convivência das ciências, que forma um hábito filosófico da mente." [N.E.]

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Poema à boca fechada


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e me amordaça.
Calado estou, calado estarei, 
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só todos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais, bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

segunda-feira, 18 de julho de 2011




As flores estão atentas:
balbuciam pelos brotos,
e dali partem harpejos
porque querem saber de ti

são as questões florais
as tonalidades limpas
os cantos perturbados
os assuntos que me chegam

Eu respondo qualquer coisa,
tonto e banzado que estou 
pois só sei ouvi-las:
não sei o que querem dizer

Perguntam por ti, dizem
- mas não sei quem tu és
Sei que quando vejo cores
são as flores que falam

E as flores falam por mim.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010



Cai coberta de terra e pó
minha vida que trepida
em divagares de subida
quando desce o rumo só

Despedaça, descontente
tropicares de cascalhos
que ali deixam retalhos
ao laranjar do meu poente

Caem n'alguma fóvea gris
os passos deste Mercúrio
que o seu soalho ebúrneo
jamais o teve, sempre o quis

E essa terra em que pisei
cisada, perene em dor
silencia plena em temor
à quimera do falso Rei.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010



Já não é mais tempo de buscar
brasas que te aqueçam no frio,
pois agora o frio abraçou a vila.

As casas estão temerosas,
as ruas estão estáticas e nuas,
como o sino que se calou.

Não te ponho mais nos braços:
te cubro depressa, zeloso
para que te escondas em mim

Nosso tempo agora é claro
e os ponteiros são soldados
numa marcha surda expatriada

Não há que intervires
dizendo saber ou não
por coisas inquestionadas

Fiques oculta, ilesa
enquanto a geada laminar
recompõe nossas cascas

Deixa que as ruas caladas
sejam vazias e aflitas,
que os sinos fiquem estáticos

Tranquemos a verdade com desvelo
e deixemo-la crescer, protegida
dos ventos e das raposas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010


 
Aqui de cima da cordilheira
onde tudo parece ser nada
venta-me um sopro frio
que congela meus sonhos
e revolve-me à plenitude
do tempo, do céu e do ar

Imagino que me espreitam
nos dias que oscilo pelas sombras,
em que fico marejado de sangue,
porque assim é solidão:
querer ser emboscado
enquanto se carneia o presente

Estar coberto pela música,
embalsamado por desejos
e preso à redoma cética
que me condena à dúvida,
que responde com meus ecos
os urros desta inércia

é então o ser deixar levado
pelo sopro que se fizera frio,
mas que alimenta o fogo
e queima, queima, queima...
Faz brasas de tristeza que
forjam contornos de melancolia

E é estar ciente dessa presença,
dessa constância redundante
que são nossos dias e noites,
que faz trespassar os minutos
qual lâminas rombas de tempo

Portanto desço da cordilheira
nos dias em que o frio me chega,
mergulho em calores líquidos,
em cenas alienadas de tudo
e passa-me o vento mais uma noite

sexta-feira, 14 de maio de 2010



Maio anoitece novamente
envolto a brumas e água.
As lâminas do frio perfuram
o cetim das tuas mãos
quando vens, regressa da noite.

Ao meu lado, radiados do fogo,
teus olhos são opalas redondas
a circundar pelas chamas.
Desses teus espelhos que ardem,
parte um eflúvio de lavas.

Nas corredeiras acetinadas,
desenham-se tridentes de fogo
que prolongam-se ao chão.
E eu mergulho nessa fusão de dores
para calar o teu Vesúvio.

Por que me queres solitário?
Por que anoitecer e perder o tempo?
Sôfrego e vespertino, desvaneço.
Sou as águas geladas do mar
onde aportam tuas escoadas.

E maio amanhece distante,
pétrea gema de luz orvalhada.
Estende-se a me brindar vazios
enquanto acendo fogareiros...
 E sei que a tudo tornará água.

terça-feira, 11 de maio de 2010



Consulto a noite estrelada
neste outono já soturno
- não percebo que sou nada.
Sou parte da cena fria
que o céu paralizou...

De cima me espreitam
com porosas luzes
me fazendo sombra e cor,
sobretom de uma harmonia
sem claves ou legendas

Na busca por respostas,
sou o retorno interrogante,
reflexo intangível da noite
que consagra-me pronto
quando perco-me nas nuvens

E é um embrulho este passar
de olhos estrelados
às pressas pela vida cega
e não saber-se vislumbrado,
paisagem que somos

Com os ventos, ondulo
qual folha perdida
indecisa de subir e descer
e repouso num ninho de sol
pacato, à espera da noite

quarta-feira, 5 de maio de 2010



Não leves a lua contigo, amor
deixa-a pendurada nessa treva
que suspira clara quando partes

que é tua sina existir em sonho
quando o sono ao luar sereno
pode claro se estender

e quando voltas temerosa
nessa volta longa e escura
terás então a lua, o céu e eu

revoltos numa harmonia
de anseio, bálsamo da espera
dissimulada festa estelar

que a tua ausência é escopo
para calar-me retirado
em breves outras lendas

e funde-te quando chegas
a esta lua que te aguarda,
ao céu fagulhado de luz

e fica então pendurada,
gracioso adorno dessa noite,
deixa-me louco de sonhar.

terça-feira, 27 de abril de 2010




É difícil falar do dia
pois à morte do sol
já sou claro e profano,
enluarada melancolia

que de mim brota como
as cinzas de um fogareiro
que acalentou o dia inteiro
o tapete, a manta, solidão

esperanças pela noite
que já tarda, esperada
criatura que toma formas
no silêncio que nos dá

e então é dessa morte
que é broto de novo dia
que nasce da melancolia
um parco amanhecer

vestido de véu molhado,
de prata tombada celeste -
pouco vale se um sol nasce
e termina esse meditar

que é de céu azul e sol
o meu esquecer das coisas
para farejar controvérsias
e desfrutar, estado esquecido

de toda essa vida desperta,
dispersa, equação ilógica
que relaciona o que faço
com coisas que não penso

e me apresento ao mal feito
e tropeço, todos olham
- essa vida do dia, juiza
é comando e comandar

razão iluminada ao sol
percalços, limites, rumores
são tantas e famigeradas
as porções dessa desordem

que seu efeito é esquecimento
calada reflexão crepuscular
no desfazer das horas
amanhecer dos tempos

de emergir o que é fato,
romper com silêncio o ruído
para fazer das cinzas do dia
a morna sabedoria da noite

e vem confessa, límpida
rotunda que fecha as luzes
e somente seu fogo reina
a inspirar as fagulhas da aurora.

quinta-feira, 22 de abril de 2010




Escura a imagem que tenho
dos contornos do espectro
- imprecisos seus limites,
a eles não acompanho
com a certeza que me fazem

Sou delineado pelos ditos
de vozes que não sabem quem sou,
e nada de mim elas têm
e não nasceram em mim,
não buscaram saber o que quero

Umas voltas à toa na rua,
umas canhas, violas, gritos
e meus pés desenham voltas
mas quando olho para trás,
são meus ditos escritos!

E lá se vão novos gritos,
que meu eu é cheio de fábulas,
contadas por uma corrente lenta
de mil elos, arquitetos desse conto
que me grafam pela noite

Mas não sei o que escrevem.
Percebo que dizem algo,
que contam mentiras longas
mas que no entanto, penso,
são verdades que não quero

E por isso esse vagar em vão,
em saber quem eu sou, quando
serei ameno em mim mesmo,
talvez num esquecer e deixar
à sombra juntar-se o espectro e eu.

quinta-feira, 15 de abril de 2010



É preciso ser um amontoado,
uma montanhosa compilação
de milindradas concepções
para nunca encontrar amor

Os amores estão badalantes
nos meandros da rotina.
São assopros rasteiros
que amaciam teus pés.

Como estão disponíveis,
e carregados de anseios,
arrolam suas más intenções
naquelas causas de sorrisos...

E tu nunca apanhastes um só!
Nunca olhou para o que pisam
teus pés voadores de pressa:
ali estão nuvens, tocas de amor

Por isso o medo de estar descalso,
por isso a ânsia da proteção,
o boicote da tua vida feliz:
não podes ser assim, disseram.

Disseram assim as concepções
Disseram assim aos montes,
porque elas sempre vêm aos bandos,
aos gritos medrosos de solidão.

Tira teus calçados, pisa nas tocas,
nas rasas nuvens leves, na morada
daqueles que te querem sorrindo.
Encontra amor por baixo das montanhas.


Há poesia no pulsar de tudo
que é intensamente mordaz
e também naquilo tudo
que é silêncio e pesar

Nas auroras mornas, acalentadas
e nos invernos de lassidão
- enfadonha e inebriante
essa poesia que não operamos

Somos mais do que é possível
quando é de vida e de tempo
o nosso trottoir, vagar e vagar,
e depois de optar, esquecer

Deixar as coisas chegarem,
vindas de uma chancela remota,
nem lembrar que estivemos
por outras trilhas diversas

E nessa ânsia por querer
saber o certo, fazer o certo
é que rasgamos o fino véu
que arpeja ao vento da poesia

Para por fim, tombados à chuva
depurarmos as memórias do sol,
brindarmos com frio o passar do verão,
estacionários à poética dos tempos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010



Vê-se logo que te amo
pela calma com que sorvo
teus longos lábios de rio
e pelo contorno que traço
com mãos de náufrago
tuas costas ancoradas

Que tem esses teus rubis
que trespassam lógicas?
- e eu me perco em desculpas
para não entendê-los,
nada além de contemplá-los,
rendido e fraco que sou

São tuas perícias místicas,
teus aromas de gardênia,
tua maciez de plumas mornas
que mitigam meu não saber
quem sou, onde estou, que preciso
- minhas alienações vagarosas

E te sorvo, tu não vês
mas percebes que te sobra
fomentar minhas questões
de vida e de viver, com sorte
ao teu lado na rota do tempo
subtraindo-te pelo meu forjar

E não és tu que vês
que te amo - duvidas, até.
Porque é assim o amor
que cresce pétreo convivido
que molda-se engrenoso persistido
que enfim é o eu, o tu, a mudez

Por que condenar, por que falar
por que lançar-se às redes
de pessoas que confundem,
quando é simples refletir
e não tecer mais caprichos:
amar, sorver, florescer e fluir.